Por Que Temos Medo de Arriscar?

 

No medo de arriscar está intrínseco o medo de falhar. Se em algum momento da nossa vida arriscamos, é porque nessa ação havia algum grau de risco, logo, o perigo de cair no erro e, consequentemente, no fracasso, na frustração e no enfraquecimento da reputação pessoal ou profissional. O medo do erro é-nos incutido desde muito cedo, na educação. Errar na escola é sinónimo de insucesso e é conotado como algo negativo, todavia, existe a consciência de que é a errar que se aprende, porque errar é humano. Estamos então perante uma ambiguidade, por isso ficamos tão relutantes quando nos deparamos com uma situação em que depende de nós arriscar ou não. Por um lado, há a clara vontade de agarrar a oportunidade, mas por outro lado, há a voz da consciência que nos retrai e impede de avançar.

Samuel Beckett cunhou a frase “Ever tried, ever failed. No matter. Try again, fail again, fail better.” (Já tentou, sempre falhou. Não importa. Tente outra vez, falhe outra vez, falhe melhor). Pode parecer pessimista a frase do escritor irlandês, porém, é enriquecedora e potencia a vontade de arriscar. Se pensarmos em probabilidades e enchermos o pensamento de cálculos, vamos cair num poço sem fundo de insegurança e diminuímos a esperança de alcançar o sucesso. No entanto, se pensarmos como Beckett, as probabilidades esvaem-se, ficando apenas a certeza de que iremos falhar. Façamos o que fizermos, vamos sempre falhar, por isso, o objetivo é falhar melhor e, se possível, tentar de novo e falhar ainda melhor do dia seguinte.

Nas artes não existe a noção de obra de arte acabada e isso pode, por um lado, arruinar a paz de espírito de um artista, que tem em mãos a decisão de quando uma peça está pronta. Quando deve parar? Porque é que o artista decidiu que aquela pincelada ou aquela palavra era a última? Quando é que o artista deixa de tentar falhar melhor? Um artista, um desportista ou um músico sabem que no seu processo de aprendizagem haverá erro, haverá uma luta constante por falhar melhor a cada dia. O ato de tentar indica que a ação anterior não levou ao sucesso esperado e é a noção de que na próxima tentativa as coisas correm melhor que está a essência da frase de Beckett.

Em vez de pensar que pode correr mal, pensamos que vai ser melhor do que o que já fizemos até agora. Ao não arriscar, o indivíduo está a impedir-se de poder falhar melhor e voltar a tentar uma e outra vez, sempre superando o Eu de ontem.

Inês Cunha

Alma Negra

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