O Porquê dos Filmes/Séries Não Serem Fiéis aos Livros

A série Game of Thrones chegou ao fim e esse fim, à semelhança de outras séries que se tornaram virais, trouxe uma montanha de comentários de fãs, fez com que rios de tinta corressem – e corram ainda – sobre tudo o que é canal de comunicação e gerou uma enorme controvérsia, o que é ótimo para quem cria conteúdos regularmente na internet.

Uma grande parte dos fãs que acompanharam a série depois de ler os livros, comentaram de forma muito negativa o enredo da série da HBO, pelo facto de este não ser fiel aos livros. Alguns personagens morreram na série, mas continuam vivos nos livros, algumas partes da história não coincidem e a série adiantou o final, ainda por escrever nos livros. O próprio George R. R. Martin, no seu blog, refere isso, mas argumenta precisamente o oposto dos leitores revoltados com a HBO. O autor da história lembra os fãs que está a trabalhar um meio de comunicação muito diferente dos realizadores da série, David e Dan. A história não é contada da mesma forma e o fim que será escrito não será necessariamente igual ao da série, mas também não será diferente.

 

TRANSMEDIA STORYTELLING

Como já tinha referido no post anterior, enquanto escrevia a minha dissertação de mestrado, li muito sobre storytelling, por ser esse o tema central da mesma, e este é mais um tema que me lembrou as matérias que estudei. Senti a necessidade de explicar o ponto de vista do autor de G.O.T. e o porquê da revolta dos leitores contra a série ser desnecessária.

Quem fala de G.O.T, pode também falar da saga Harry Potter. Eu própria, depois de ler toda essa saga, olhei de novo para os filmes com alguma revolta, porque muita coisa não fazia sentido. Porém hoje, penso…. Claro que faz sentido! Passo a explicar. Quando falamos de sagas que se espalham por vários meios de comunicação, como G.O.T, Harry Potter, Star Wars, etc, falamos de Transmedia Storytelling. Henry Jenkins, autor que cunhou o termo, explica o que é Transmedia Storytelling da seguinte forma:

 

“Transmedia Storytelling representa um processo onde os elementos de uma narrativa se dispersam sistematicamente através de múltiplos meios de comunicação, com o propósito de criar uma experiência organizada e unificada. Idealmente, cada meio contribui de forma única para o desenrolar da história.”
Henry Jenkins, Transmedia Storytelling 101 (2003)

 

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Cada canal de comunicação conta a história de uma forma única, ou seja, cada pedaço de conteúdo sobre a mesma história, contado num meio de comunicação diferente, deve acrescentar magia à história, muito mais do que a repetir através de vários meios. Os peritos em storytelling criticam até a massificação das histórias, que as faz chegar exatamente da mesma forma ao público. Aí, trata-se apenas de uma forma de lucrar com uma história vendável. Henry Jenkins diz que temos de ser sinceros e aceitar que existem fortes motivos económicos por detrás de Transmedia Storytelling, tal como noutro tipo de negócio, no entanto, precisamos de entender que Transmedia Storytelling não é simplesmente a divulgação de uma história por vários meios de comunicação.

Ao conjunto de meios de comunicação para contar a mesma história chamamos storyworld. O mundo da história engloba os livros, as séries, as bandas desenhadas, as músicas, os jogos, o merchandising e tudo o que é produzido em volta da mesma história. Essas são as fontes onde os fãs inconsoláveis de uma boa história vão beber. Quando viajamos de um meio para o outro, estamos a viver no mundo da história e esperamos que, em cada viagem, sejamos surpreendidos e que haja mais qualquer coisa, mais informação que nos faça mergulhar ainda mais no enredo. Não importa que um meio seja fiel ao outro, desde que a história nos faça viajar e ter uma experiência diferente ao virar de cada página, a cada segundo diante do ecrã, a cada quadradinho colorido sobre o papel.

Na realidade, o storyworld também pode ser chamado de franchise, porque existem conteúdos baseados na mesma história, a ser produzidos por várias equipas de criativos e a ser lançados no mercado. A função desses criativos é de não tornar esse franchise numa máquina de fazer dinheiro, sem alma, sem estratégia, sem enredo, sem criatividade. Nós próprios, quando lemos um livro, criamos a nossa própria imagem na cabeça, imaginamos os personagens, os locais, até as vozes. Não significa isso que a forma como eu imagino a mesma história na minha cabeça seja errada por não ser igual à que outra imagina e vice versa. Cada um mergulha na historia e retira dela uma experiência completamente distinta.

Para ter sucesso com os seus conteúdos, os artistas vendem os seus direitos a empresas distribuidoras, que foi o caso de George R.R. Martin, e os profissionais do meio chamam a essa prática co-criação, porque as empresas contribuem com novos conteúdos, que sabem que irão dar bom resultado em cada uma das plataformas, permitindo que cada media gere uma nova experiência para o consumidor e expanda o franchise. No fundo, essas empresas, desempenhando o seu papel à luz da opinião dos peritos, mais do que serem simples distribuidoras que repetem a história em vários suportes digitais ou físicos, são co-criadoras da história principal, ajudando a construir o storyworld e contribuindo com os recursos necessários para passar a história do papel para os ecrãs, para as bancas ou para as consolas de jogos. Estas sinergias são importantes porque ditam a forma como o público vai aceitar e interagir com a história. Os storytellers trabalham em conjunto com os peritos de cada tipo de media e, assim, é construído um mundo em que a audiência imerge na história, passando a fazer parte dela. No caso dos irmãos Wachowski, autores da trilogia The Matrix, quando se juntaram à distribuidora Warner Bros. para co-criar o storyworld que hoje conhecemos, optaram por trabalhar com pessoas que eles próprios admiravam, pessoas que não iam limitar-se a obedecer a ordens e às quais lhes foi dada total liberdade na realização do seu trabalho, tendo como única limitação respeitar a realidade do mundo da história.

 

ESCRITORES = CRIADORES DE MUNDOS

Por estas razões, hoje permito a mim mesma que mergulhe num storyworld e experiencie as inúmeras possibilidades, em vez de me prender a um só media e o tomar como verdadeiro em detrimento dos outros conteúdos. Para além de que são os próprios escritores dessas histórias, criadores de mundos, que vendem os seus direitos e se juntam a outros grandes profissionais para que as suas histórias, os seus mundos, ganhem forma e cheguem até nós. Imagina o que seria da J.K. Rolling sem o franchising. Imagina como seria se o orgulho de um escritor impedisse que sagas como O Senhor dos Anéis nunca saísse de dentro de uma gaveta empoeirada. Sem um segundo par de olhos para ler e uma mente para viajar.

Imagina o mundo sem outros mundos para explorar.

 

 

Inês Cunha

Alma Negra

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