Porque Gostamos Tanto de Histórias?

“Porque é que o cérebro humano gosta de histórias?” – Era uma das perguntas que despertava o meu interesse enquanto estudante de marketing e ainda inquieta o meu pensamento quando o storytelling é o pano de fundo para a minha incessante procura pelo entendimento do que é isto de comunicação empresarial. Afinal, existe uma explicação científica para o facto de o ser Humano gostar tanto de histórias e qual o impacto das mesmas para o seu desenvolvimento pessoal e social.

Esta foi também a pergunta que levou os estudantes e professores do CNS (Center for Neuroeconomic Studies) da Universidade de Claremont, na Califórnia, há cinco anos atrás, a investigar as interações do cérebro enquanto histórias eram contadas. Esta investigação conclui que o hipotálamo produz uma hormona designada como oxitocina e que a mesma é responsável, entre outras coisas, pela criação de empatia entre pessoas. É através desta criação de empatia que é possível fazer com que as pessoas sintam necessidade de ajudar o outro. Contudo, para que esta hormona seja produzida pelo cérebro, é necessário, em primeiro lugar, criar atenção, caso contrário, a audiência não se interessará pela narrativa e, consequentemente, os seus cérebros não gerarão a substância que provoca empatia. Desta forma, os investigadores chegaram à conclusão de que é crucial ter uma primeira abordagem positiva e que capte a atenção da audiência, para que seja possível que o cérebro, antes da oxitocina, produza uma hormona chamada cortisol, que faz com que estejamos atentos e focados, para então conseguir chegar a criar empatia com o desenrolar da história.

Para Paul J. Zak, professor na Universidade de Claremont e diretor do CNS, a teoria de Joseph Campbell pode ser aplicada a esta forma de captar atenção no público através de histórias, uma vez que o cérebro humano se identifica com histórias sobre desafios difíceis e consecutivos triunfos, aconselhando as empresas a adotar essa abordagem com os seus stakeholders. Por isso, é crucial captar, não só a atenção e o lado sensitivo dos clientes, mas sim de todos aqueles que têm parte ativa numa empresa, pois são essas pessoas as responsáveis pelo sucesso de um negócio e devem ser inspiradas pelos seus valores.

 

O Papel das Histórias para a Vida Humana

Inspiração é a palavra de ordem quando se fala em storytelling, pois é através das histórias que, desde crianças, procuramos significado para a vida.

 

Everyone likes read a books together

“A criança, à medida que se desenvolve, deve aprender passo a passo a se entender melhor; com isto, torna-se mais capaz de entender os outros, e eventualmente pode relacionar-se com eles de forma mutuamente satisfatória e significativa.”

– Bruno Bettelheim

 

Bruno Bettelheim foi um médico psicanalista austro-americano nascido em Viena em 1903, que viajou para os Estados Unidos depois de ser libertado de um campo de concentração nazi durante a II Guerra Mundial, por ser descendente de uma família judia. Bettelheim começou aí a trabalhar com crianças gravemente perturbadas com o principal intuito de restaurar o significado das suas vidas, pois para elas, essa esperança já não existia. Apenas com esperança no futuro conseguimos ultrapassar os obstáculos que vão surgindo no percurso das nossas vidas. Uma das formas que as crianças encontram para entender o mundo que as rodeia é ler histórias que a sua cultura lhes oferece. Ainda assim, Bettelheim mostra-se descontente face à literatura infantil dos primeiros anos do século XXI, devido à forma vazia com que destroem o significado das histórias. Se a história é vazia de significado, a criança não consegue ser estimulada para desenvolver as capacidades que necessita para lidar com os seus conflitos interiores, daí a grande importância das histórias desde tenra idade.

 

Escolher Ser Herói ou Vilão

A análise que este psicanalista fez é ainda hoje muito importante para o estudo das narrativas e do comportamento e desenvolvimento das crianças. O storytelling é, como afirma Bruno Bettelheim, fundamental para o crescimento da criança e para a sua definição de bem e de mal. O especialista defendia que não se deve esconder o mal das crianças, mostrando-lhes apenas a bondade, a alegria e os sucessos, porque a vida não é só agradável. A própria criança tem também um lado mau, por isso, quando apenas a bondade lhe é transmitida e esta demonstra (banais) más atitudes vindas do seu inconsciente, vai sentir-se mal consigo mesma. A situação agrava-se quando a criança é repreendida por um adulto de quem apenas conhece o lado bom, porque perde a esperança em conseguir atingir sucessos, por se sentir desenquadrada socialmente e, consequentemente, falhada. Ao longo do tempo e do crescimento, a criança aumenta as suas incertezas e frustrações e a sua auto-estima vai-se destruindo gradualmente.

Os contos de fadas representam o lado bom, o herói, e por outro lado, representam também o lado mau, o vilão, o que ajuda a criança a decidir qual dos exemplos quer seguir. Normalmente, a criança escolhe ser como o herói porque entende que o vilão quer atingir os seus sucessos através do sofrimento de outros e acaba derrotado pelo herói, que transmite valores nobres como coragem, resiliência, aprendizagem e compaixão. Cada conto de fadas, como conclui o psicanalista no seu livro A Psicanálise dos Contos de Fadas, é um espelho mágico que reflete alguns aspectos do nosso mundo interior e dos passos necessários para evoluirmos da imaturidade para a maturidade.

Por todas estas razões, desde os primórdios da Vida Humana, as histórias são o principal veículo da sociedade para a partilha de conhecimento. Os mitos urbanos, as histórias da Carochinha com as quais crescemos, os contos e os filmes, para além de serem uma forma de viajar sem sair do lugar, arrancando-nos da prisão que é a nossa vida quotidiana, são ainda excelentes meios para definirmos interiormente quem queremos ser em sociedade. Que papel queremos interpretar na vida real.

Por isso, quando chegares a casa, pega num livro, viaja e, se possível, leva alguém contigo lendo em voz alta a tua história preferida.

 

Inês Cunha

Alma Negra

 

Fontes:
Bettelheim, B., (2002). A Psicanálise dos Contos de Fadas. Paz e Terra, 16a edição. Traduzido do original em inglês The Uses of Enchantment: The Meaning And Importance of Fairytales.
Zak, P. (2014). Why Your Brain Loves Good Storytelling. Harvard Business Review. [Online] 28 Outubro. https://hbr.org/2014/10/why-your-brain-loves-good-storytelling

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